Méditations brésiliennes sur un marché de São Paulo / Roger Bastide

Roger Bastide : “Méditations brésiliennes, sur un marché de São Paulo”, Dom Casmurro, 2 de junho 1938.

Nesse artigo, publicado numa revista literária do Rio, Bastide conta com muita poesia, as impressões que teve numa feira de São Paulo. São reflexões sobre a mistura das raças do povo brasileiro, que segundo ele, é uma vantagem e uma grandeza. Segundo ele, o drama do Brasil não está na luta dos sangues, mas sim  no desraizamento das populações que cultivam as tradições duma terra deixada de força.

“J’aime errer parmi cette foule d’acheteuses et de marchands, sur cette place où le soleil et les nuages jettent, alternativement, des taches d’ombres ou de feu. Japonais agiles, mûlatresses qui se balancent doucement sur leurs hanches, portugais , italiennes volubiles, brésiliens affairés qui, brusquement s’arrêtent, envahis par je ne sais quel songe merveilleux soudainement jailli, qui les tient, un moment immobiles, graves, dans un lyrisme concentré. Poules hagardes, attachées par les pattes ; étalages de beurre ou de “verdure” : bananes, ananas, richesses savoureuses de la terre. Et ces oranges juteuses qu’un enfant noir mord. Tout comble et l’esprit et le coeur.

Et cependant, devant ce coudoiement de tant de races sur ce tout petit espace de quelques mètres carrés, en écoutant ces voix diverses, comment ne pas se rappeler ce qu’écrivait Abel Bonnard, dans un récent numéro de Dom Casmurro? Le drame du Brésil ne serait-il pas dans le mélange des sangs opposés, dans cette lutte sourde qui se continue en tout être d’ici entre tant d’hérédités contradictoires?

Mais je repousse vite cette idée, car je songe, sur ce marché de São Paulo, à d’autres marchés de chez moi dans certains coins cévenols, sur des places antiques, traversées en de petites villes de montagnes, de vents aigres l’hiver, lourdes de chaleur l’été. Et sans doute A. Bonnard, travaillant sans son cabinet d’études revêtu de livres, loin de la rue et des hommes, ignore t-il ou ne sait-il pas voir qu’aussi, sur cette terre française, bien des races se sont mêlées, que, dans les veines de nos paysans, coulent et s’affrontent bien des sangs contraires.

Il suffit en effet de les regarder ces paysans de France, anguleux et mystiques, ronds et bavards, sombres ou rusés, pour reconnaître leurs lointains aïeux. Celui-ci, grand, bien taillé, aux moustaches tombantes, contemplant un coin de ciel entre les toits pointus est gaulois, tandis que cet autre, petit, rasé, la tête ronde, est romain. Voici un descendant de ces arabes qui ont conquis un moment le sud de la France et ont laissé tant de traces émouvantes de leurs passages : il montre, en riant, ses dents blanches et cruelles et ses yeux brillent de la même flamme mystique qui s’allumait dans le regard des soldats de Mahomet. Près de lui, blond de peau, ce vigneron est un fils authentique des Germains qui ont fui autrefois  les forêts humides pour de plus riches pays. Et moi même, je sais qu’un peu de sang italien coule dans mes veines, je crois aussi sentir vivre, parfois, au fond de moi, un peu de l’âme more… Et cependant, pour un regard superficiel, tous ces hommes se ressemblent. C’est que le paysan français, la montagne, la plaine et la mer, lentement ont harmonisé les contraires, modelé les vies, créé le génie d’un peuple. Ainsi le paysage brésilien, la terre rouge où pousse le café, le sertão d’où monte le cri sauvage d’un oiseau créent l’âme brésilienne et font de toutes les musiques qui sont parfois un peu discordantes, la plus irremplaçable des harmonies.

Non, le drame du Brésil n’est pas dans le croisement des peuples. C’est là, au contraire, sa grandeur. Le drame du Brésil est ailleurs.

Il est dans les ondes hertziennes qui apportent les souvenirs et les appels du pays quitté et dans les traditions anciennes qu’il se refuse à rompre. Les races diverses qui ont créé la France seraient l’histoire. Les peuples d’aujourd’hui ont une histoire et le livre, le disque et la radio sont là pour le leur rappeler. Mais il y a heureusement, pour dominer ce tumulte du passé, la beauté grave des cimetières, il y a ceux qui sont morts sur le sol brésilien et qui, désormais, tissent le lien tenace entre les vivants et la terre nouvelle. Autour du tombeau, un mystérieux amour s’éveille et la patrie, c’est celle où reposent à jamais, les êtres qui vous furent chers.

Ainsi, s’il y a un drame brésilien, il n’est pas dans le conflit des races et dans la lutte des sangs mêlés, il est dans ce conflit entre une tombe et une radio.
Dans ce dialogue pathétique entre les voix de la Terre, vivant de tant de morts, et les voix du Ciel, appel des cieux quittés.”

As cidades de Tristes trópicos

As cidades de Tristes trópicos


José Guilherme Cantor Magnani
Professor do Departamento de Antropologia – USP

RESUMO: Este artigo repassa, em Tristes trópicos, as observações de Lévi-Strauss sobre o tema da cidade, desde as primeiras impressões quando de sua chegada ao Brasil, passando pela “etnografia dos domingos” na capital paulistana, o surgimento das novas cidades no norte do Paraná, até, finalmente, as multidões em espaços urbanos da Índia, pólo que o leva a estabelecer comparações com as formas características do processo de urbanização no Novo Mundo. Tomando sua leitura como um exercício de análise, o artigo conclui refletindo sobre a oportunidade de contar com categorias que permitam captar, a partir da antropologia, a dinâmica urbana contemporânea.

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Visões de São Paulo : Lévi-Strauss, Bastide, Monbeig

São Paulo, foto de Marcel Gautherot

Artigo de Fernanda Arêas Peixoto

“A imagem de São Paulo como terra de estrangeiros circula em diferentes registros : no senso comum, nas artes e na bibliografia histórica-sociológica. Isso se relaciona diretamente às levas de migrantes que aqui aportaram entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, alterando a fisionomia física e social da cidade, que se torna incompreensível, a partir de então, sem esses personagens. Trabalhadores fabris e artesões; empresários, artistas e profisionais liberais – que se fixam ou passam pela cidade – deixam suas marcas na linguagem, nos hábitos e sociabilidade locais, bem como nas construções, na arquitetura, nas artes e na produção do conhecimento de modo mais geral.

O objetivo aqui é tentar uma aproximação desse cenário mais amplo, com a ajuda de um acesso específico. Trata-se de olhar para São Paulo nas primeiras décadas do século XX a pertir de três experiências : as de Claude Lévi-Strauss (1908), Roger Bastide (1898-1974) e Pierre Monbeig (1908-1987), professores da Universidade de São Paulo, que viveram e circularam pela cidade nos anos 1930 e 1940. Em outras palavras, o meu intuito é tentar localizar as perspectivas de cada um deles sobre a cidade, que se revela- por meio dessas miradas estrangeiras – de novos ângulos.

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Levi-Strauss : “Saudades de São Paulo” – extratos

Em Saudades de São Paulo , Claude Levi-Strauss descreve a paisagem que ele encontrou, fascinado, entre 1935 e 1937, quando veio trabalhar na Universidade de São Paulo. Sessenta anos mais tarde, ciente de que uma cidade é “como um texto que, para compreender, é preciso saber ler e analisar”, o antropólogo escreveu um depoimento memorável em que revisita essas imagens.

“Como distinguir hoje o que provinha, quando cheguei ao Brasil, aos 27 anos, de um ardor ainda juvenil ou das circunstancias tão novas em que me vi colocado? Meus colegas da missão universitária francesa e eu éramos, quase todos, pequenos professores em liceus de província cujo desejo de evasão, cujo gosto pela pesquisa haviam chamado a atenção de Georges Dumas. Após termos vivido em alojamentos muito modestos, nos instalávamos em vastas casas particulares com jardim nas quais nossas esposas seriam servidas por domesticas. » Leia mais

Roger Bastide : “Brasil, terra de contrastes” – extratos

Tarsila do Amaral : Operários

O livro “Brasil, terra de contrastes” é com certeza o livro no qual Bastide exprime o mais suas impressoes sobre o Brasil; eu coloquei nesse post alguns extratos  que me pareceram relevantes, mas vale a pena de procurar-se o texto inteiro.

“Brasil, terra de contastes… contrastes geográficas, contrastes econômicos, contrastes sociais. País que sozinho é tão grande quanto tôda a Europa, excetuando-se a URSS, alonga-se desde a floresta Amazônica até os pampas do Uruguai, alternando planicies, montanhas e altiplanos, plantações e pastagens, clima temperado sucedendo ao clima tropical : a Amazônia líquida, em que terra é água, rio e floresta fundem-se numa imensa sinfonia verde , o poligono das sêcas, de solo calcinado pelo sol, eriçado de cactos, o gado mugindo a pedir chuva, o litoral dos canaviais, velhos engenhos adormecidos, negros dançando ao luar junto de igrejas barrôcas : terra gaúcha de capinzais cobrindo vastas extensões, homens-centauros guardando as fronteiras do sul …

Todavia, malgrado as oposições, o viajante percorre enormes distâncias sem que o paisagem se modifique, dando a impressão de uma natureza sempre igual a si mesma. É preciso viajar centenas de quilômetros de avião para passar de uma para outra dessas províncias. Monotonia nos contrastes. Uniformidade nas oposições… Leia mais

A influência dos estilos arquitetônicos franceses nas construções do Rio e São Paulo nos séculos passados

Basta caminhar com um olhar atento pelas ruas de São Paulo e do Rio, para perceber o estilo arquitetônico francês presente em alguns prédios e palacetes das duas cidades. Apesar de perdidos no meio do caos urbano e entregues à ação do tempo, as construções ainda conservam o glamour de um Brasil rico e próspero – cheio de casas amplas e jardins decorativos. A influência francesa na arquitetura brasileira durou aproximadamente de 1816 até a Segunda Guerra Mundial e se manifestou sob a forma de quatro estilos distintos: o neoclássico, o eclético, o Art Déco ou Art Nouveau e o moderno. De acordo com Carlos Lemos, arquiteto e professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, no Rio de Janeiro, essa influência foi mais forte na época do império e em São Paulo começou a partir do estilo eclético (século XIX), patrocinado principalmente pelos barões do café. Lemos afirma que essa inspiração trouxe para o Brasil muito mais do que uma estética de fachada, mas um modo de morar à francesa, em que, pela primeira vez, as construções eram divididas em alas totalmente independentes – de dormir, de estar e de serviço. “Essa é, com certeza, a maior contribuição da arquitetura francesa ao Brasil. Conceito utilizado até hoje na maioria dos projetos”, afirma.

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Não deixe de ver a reportagem do Jornal O Globo:
Influência francesa na paisagem urbana do Rio