Citações do Bastide : sobre lembrança do Brasil, ao voltar para França e sobre o catolicismo “africanisado” do Brasil

Lembrança do Brasil, ao voltar para França :

“Quem viveu no Brasil não consegue esquecer o país. Procura-o em toda parte. Não posso passar diante da Torre Eiffel sem ver se desenhar no céu a imagem de Santos Dumont, nem diante do Boeuf sur le toit sem escutar ressoarem os sambas brasileiros.”

in “Verger-Bastide : dimensão de uma amizade”. A Burrinha de Uidá, p.77

Catolisismo africanisado :

“Assim se criou um Catolicismo negro que se conserva dentro das confrarias e que, não obstante a unidade dos dogmas e da fé, apresenta características especiais. Era um Catolicismo no qual os valores culturais e religiosos vindos da África se tinham discretamente amalgamado com aqueles trazidos ao Brasil pelos senhores portugueses.”

in “Les religions africaines au Brésil”, Paris, 1960, p.166

Méditations brésiliennes sur un marché de São Paulo / Roger Bastide

Roger Bastide : “Méditations brésiliennes, sur un marché de São Paulo”, Dom Casmurro, 2 de junho 1938.

Nesse artigo, publicado numa revista literária do Rio, Bastide conta com muita poesia, as impressões que teve numa feira de São Paulo. São reflexões sobre a mistura das raças do povo brasileiro, que segundo ele, é uma vantagem e uma grandeza. Segundo ele, o drama do Brasil não está na luta dos sangues, mas sim  no desraizamento das populações que cultivam as tradições duma terra deixada de força.

“J’aime errer parmi cette foule d’acheteuses et de marchands, sur cette place où le soleil et les nuages jettent, alternativement, des taches d’ombres ou de feu. Japonais agiles, mûlatresses qui se balancent doucement sur leurs hanches, portugais , italiennes volubiles, brésiliens affairés qui, brusquement s’arrêtent, envahis par je ne sais quel songe merveilleux soudainement jailli, qui les tient, un moment immobiles, graves, dans un lyrisme concentré. Poules hagardes, attachées par les pattes ; étalages de beurre ou de “verdure” : bananes, ananas, richesses savoureuses de la terre. Et ces oranges juteuses qu’un enfant noir mord. Tout comble et l’esprit et le coeur.

Et cependant, devant ce coudoiement de tant de races sur ce tout petit espace de quelques mètres carrés, en écoutant ces voix diverses, comment ne pas se rappeler ce qu’écrivait Abel Bonnard, dans un récent numéro de Dom Casmurro? Le drame du Brésil ne serait-il pas dans le mélange des sangs opposés, dans cette lutte sourde qui se continue en tout être d’ici entre tant d’hérédités contradictoires?

Mais je repousse vite cette idée, car je songe, sur ce marché de São Paulo, à d’autres marchés de chez moi dans certains coins cévenols, sur des places antiques, traversées en de petites villes de montagnes, de vents aigres l’hiver, lourdes de chaleur l’été. Et sans doute A. Bonnard, travaillant sans son cabinet d’études revêtu de livres, loin de la rue et des hommes, ignore t-il ou ne sait-il pas voir qu’aussi, sur cette terre française, bien des races se sont mêlées, que, dans les veines de nos paysans, coulent et s’affrontent bien des sangs contraires.

Il suffit en effet de les regarder ces paysans de France, anguleux et mystiques, ronds et bavards, sombres ou rusés, pour reconnaître leurs lointains aïeux. Celui-ci, grand, bien taillé, aux moustaches tombantes, contemplant un coin de ciel entre les toits pointus est gaulois, tandis que cet autre, petit, rasé, la tête ronde, est romain. Voici un descendant de ces arabes qui ont conquis un moment le sud de la France et ont laissé tant de traces émouvantes de leurs passages : il montre, en riant, ses dents blanches et cruelles et ses yeux brillent de la même flamme mystique qui s’allumait dans le regard des soldats de Mahomet. Près de lui, blond de peau, ce vigneron est un fils authentique des Germains qui ont fui autrefois  les forêts humides pour de plus riches pays. Et moi même, je sais qu’un peu de sang italien coule dans mes veines, je crois aussi sentir vivre, parfois, au fond de moi, un peu de l’âme more… Et cependant, pour un regard superficiel, tous ces hommes se ressemblent. C’est que le paysan français, la montagne, la plaine et la mer, lentement ont harmonisé les contraires, modelé les vies, créé le génie d’un peuple. Ainsi le paysage brésilien, la terre rouge où pousse le café, le sertão d’où monte le cri sauvage d’un oiseau créent l’âme brésilienne et font de toutes les musiques qui sont parfois un peu discordantes, la plus irremplaçable des harmonies.

Non, le drame du Brésil n’est pas dans le croisement des peuples. C’est là, au contraire, sa grandeur. Le drame du Brésil est ailleurs.

Il est dans les ondes hertziennes qui apportent les souvenirs et les appels du pays quitté et dans les traditions anciennes qu’il se refuse à rompre. Les races diverses qui ont créé la France seraient l’histoire. Les peuples d’aujourd’hui ont une histoire et le livre, le disque et la radio sont là pour le leur rappeler. Mais il y a heureusement, pour dominer ce tumulte du passé, la beauté grave des cimetières, il y a ceux qui sont morts sur le sol brésilien et qui, désormais, tissent le lien tenace entre les vivants et la terre nouvelle. Autour du tombeau, un mystérieux amour s’éveille et la patrie, c’est celle où reposent à jamais, les êtres qui vous furent chers.

Ainsi, s’il y a un drame brésilien, il n’est pas dans le conflit des races et dans la lutte des sangs mêlés, il est dans ce conflit entre une tombe et une radio.
Dans ce dialogue pathétique entre les voix de la Terre, vivant de tant de morts, et les voix du Ciel, appel des cieux quittés.”

De perto e de longe : entrevista com Lévi-Strauss

Entrevista que Claude Lévi-Strauss, notoriamente discreto, concedeu em 1988 a Didier Eribon, filósofo francês.

No segundo capítulo, ele destaca as viagens a São Paulo e ao interior do Brasil, sublinhando a convivência com os outros professores da missão francesa.

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Lévi-Strauss no Brasil : a formação do etnólogo

O artigo procura acompanhar o período brasileiro de Claude Lévi-Strauss (1935-1938), rastreando suas publicações, aulas e pesquisas no momento em que era professor de sociologia na Universidade de São Paulo, com o objetivo de compreender o lugar ocupado pelo Brasil na sua trajetória. O interesse é mostrar que apesar de breve, e de modo geral silenciada, a etapa brasileira do autor foi fundamental para os desdobramentos de sua futura carreira como etnólogo e americanista. O texto procura também avaliar o significado da vinda de Lévi-Strauss para o Brasil no contexto francês da época, quando o americanismo era ainda terreno pouco explorado, ao contrário do africanismo, “vocação” em voga no momento.  Leia aqui

As cidades de Tristes trópicos

As cidades de Tristes trópicos


José Guilherme Cantor Magnani
Professor do Departamento de Antropologia – USP

RESUMO: Este artigo repassa, em Tristes trópicos, as observações de Lévi-Strauss sobre o tema da cidade, desde as primeiras impressões quando de sua chegada ao Brasil, passando pela “etnografia dos domingos” na capital paulistana, o surgimento das novas cidades no norte do Paraná, até, finalmente, as multidões em espaços urbanos da Índia, pólo que o leva a estabelecer comparações com as formas características do processo de urbanização no Novo Mundo. Tomando sua leitura como um exercício de análise, o artigo conclui refletindo sobre a oportunidade de contar com categorias que permitam captar, a partir da antropologia, a dinâmica urbana contemporânea.

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“A propósito da poesia como método sociológico” : textos de Roger Bastide

Bastide propõe nesses dois textos um método sociológico baseado na experiência poética.

“Trata-se, para o sociólogo, de não se colocar de maneira exterior à experiência social, e sim de vivê-la (…) Temos necessidade de nos transformar naquilo que estudamos, multidão, massa, classa, classe ou casta (…) É necessário, como num ato de amor, transcender nossa personalidade para aderir à alma que se encontra ao dado estudado”

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Textos primeiro publicados no Diário de São Paulo, nos 8 e 22 de fevereiro de 1946.

Visões de São Paulo : Lévi-Strauss, Bastide, Monbeig

São Paulo, foto de Marcel Gautherot

Artigo de Fernanda Arêas Peixoto

“A imagem de São Paulo como terra de estrangeiros circula em diferentes registros : no senso comum, nas artes e na bibliografia histórica-sociológica. Isso se relaciona diretamente às levas de migrantes que aqui aportaram entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, alterando a fisionomia física e social da cidade, que se torna incompreensível, a partir de então, sem esses personagens. Trabalhadores fabris e artesões; empresários, artistas e profisionais liberais – que se fixam ou passam pela cidade – deixam suas marcas na linguagem, nos hábitos e sociabilidade locais, bem como nas construções, na arquitetura, nas artes e na produção do conhecimento de modo mais geral.

O objetivo aqui é tentar uma aproximação desse cenário mais amplo, com a ajuda de um acesso específico. Trata-se de olhar para São Paulo nas primeiras décadas do século XX a pertir de três experiências : as de Claude Lévi-Strauss (1908), Roger Bastide (1898-1974) e Pierre Monbeig (1908-1987), professores da Universidade de São Paulo, que viveram e circularam pela cidade nos anos 1930 e 1940. Em outras palavras, o meu intuito é tentar localizar as perspectivas de cada um deles sobre a cidade, que se revela- por meio dessas miradas estrangeiras – de novos ângulos.

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