‘Lévi-Strauss me levou a pensar muitas coisas sobre o país’, diz Caetano Veloso

Compositor cita o antropólogo na letra de ‘O estrangeiro’. Música revela as impressões do francês sobre a Baía da Guanabara.

Paulo Guilherme Do G1, em São Paulo
03/11/09 – 21h19 – Atualizado em 04/11/09 – 09h38

Caetano Veloso citou uma observação do antropólogo Claude Lévi-Strauss em um dos primeiros versos da música “O estrangeiro”, faixa de abertura do álbum de mesmo nome lançado pelo cantor em 1989. “O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara/Pareceu-lhe uma boca banguela”, dizia a letra, que de certa forma contribuiu para divulgar ainda mais a obra do francês e sua relação com o Brasil. Em entrevista por e-mail ao G1, Caetano Veloso conta a história da música e de sua admiração pela obra de Lévi-Strauss, que teve sua morte anunciada nesta terça-feira (3):

G1 – O que te levou a incluir a citação a Lévi-Strauss na letra da música “O estrangeiro”?
Caetano –
A vontade de abrir a canção citando olhares estrangeiros sobre a Baía de Guanabara: tinha a declaração de Gauguin, a de Cole Porter (ambas elogiosas) e eu quis juntar a de Lévi-Strauss, depreciativa.

G1 – De onde você buscou esta referência?
Caetano –
Do livro “Tristes Trópicos”. Nesse livro maravilhoso, Lévi-Strauss pede desculpas por discordar de todos que acham o Rio bonito e declara que, para ele, a cidade não tem nenum encanto e as proporções entre a baía e as rochas que a circundam (Pão de Açúcar, Corcovado, Urca e pedras menores) dão a impressão de uma boca desdentada: os promontórios seriam muito pequenos para o tamanho da baía.

G1- Você teve algum contato maior com os estudos de Lévi-Strauss?
Caetano –
Li “Tristes Trópicos” em 1967. Fiquei surpreso e maravilhado. Eu era fã de Sartre: nunca esperei encontrar algo tão diferente dele e tão inteligente, revelador. Depois li “O pensamento selvagem”, “O cru e o cozido” e “Race et Histoire”- além da longa entrevista com Didier Éribon e trechos de outros livros (inclusive um sobre pintura). Lévi Strauss era um grande escritor e, como todos sabem, um antropólogo que influenciou muita gente, dentro e fora da antropologia. Seu nome está ligado à invenção do chamado “estruturalismo”. A filosofia, as ciências humanas em geral e a política sofreram importantíssima influência de sua personalidade intelectual. Leio essas coisas por gosto, sem método.

G1 – Você chegou a conhecer o antropólogo pessoalmente?
Caetano
– Nunca vi Lévi-Strauss pessoalmente. Sei que ele soube (por alguns segundos) que um compositor brasileiro tinha citado a frase dele. Ele apenas minimizou o aspecto negativo da observação, dizendo que tinha escrito aquilo fazia muito tempo.

G1 – Para você, qual foi a importância de Lévi-Strauss na concepção de Brasil?
Caetano
– Na verdade, para mim foi muito grande. Ler “Tristes Trópicos” me levou a pensar muitas coisas sobre nosso país de um modo que não seria possível antes. O trecho sobre a USP é muito comovente e ainda instiga. Ainda hoje, no livro “Saudades do Brasil”, a ideia de que os vasos marajoara são vestígios de uma grande civilização amazônica de onde teria saído a grande cultura andina (e não o caminho inverso) joga uma luz diferente sobre a maneira de sentirmos o significado de nossa terra.

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