Levi-Strauss : “Saudades de São Paulo” – extratos

Em Saudades de São Paulo , Claude Levi-Strauss descreve a paisagem que ele encontrou, fascinado, entre 1935 e 1937, quando veio trabalhar na Universidade de São Paulo. Sessenta anos mais tarde, ciente de que uma cidade é “como um texto que, para compreender, é preciso saber ler e analisar”, o antropólogo escreveu um depoimento memorável em que revisita essas imagens.

“Como distinguir hoje o que provinha, quando cheguei ao Brasil, aos 27 anos, de um ardor ainda juvenil ou das circunstancias tão novas em que me vi colocado? Meus colegas da missão universitária francesa e eu éramos, quase todos, pequenos professores em liceus de província cujo desejo de evasão, cujo gosto pela pesquisa haviam chamado a atenção de Georges Dumas. Após termos vivido em alojamentos muito modestos, nos instalávamos em vastas casas particulares com jardim nas quais nossas esposas seriam servidas por domesticas. » Leia mais

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Roger Bastide : “Brasil, terra de contrastes” – extratos

Tarsila do Amaral : Operários

O livro “Brasil, terra de contrastes” é com certeza o livro no qual Bastide exprime o mais suas impressoes sobre o Brasil; eu coloquei nesse post alguns extratos  que me pareceram relevantes, mas vale a pena de procurar-se o texto inteiro.

“Brasil, terra de contastes… contrastes geográficas, contrastes econômicos, contrastes sociais. País que sozinho é tão grande quanto tôda a Europa, excetuando-se a URSS, alonga-se desde a floresta Amazônica até os pampas do Uruguai, alternando planicies, montanhas e altiplanos, plantações e pastagens, clima temperado sucedendo ao clima tropical : a Amazônia líquida, em que terra é água, rio e floresta fundem-se numa imensa sinfonia verde , o poligono das sêcas, de solo calcinado pelo sol, eriçado de cactos, o gado mugindo a pedir chuva, o litoral dos canaviais, velhos engenhos adormecidos, negros dançando ao luar junto de igrejas barrôcas : terra gaúcha de capinzais cobrindo vastas extensões, homens-centauros guardando as fronteiras do sul …

Todavia, malgrado as oposições, o viajante percorre enormes distâncias sem que o paisagem se modifique, dando a impressão de uma natureza sempre igual a si mesma. É preciso viajar centenas de quilômetros de avião para passar de uma para outra dessas províncias. Monotonia nos contrastes. Uniformidade nas oposições… Leia mais

Registro do encontro de chefs brasileiros no Mercado Ver-o-Peso

Chef Paulo Martins – Restaurante Lá em Casa | Depoimento

O chef Paulo Martins fala sobre o Círio de Nazaré, culinária mundial, regional brasileira e paraense.

Anna Maria Martins – Restaurante Lá em Casa | Depoimento

Restaurante Lá em Casa | Belém-PA

LÁ EM CASA, UMA HISTÓRIA SABOROSA

Transformar a culinária paraense em sucesso internacional, criar uma griffe gastronômica no norte do Brasil, reconhecida no país e no exterior, é trabalho de gente de talento, gente competente, gente empreendedora.

pato no tucupi

O pato no tucupi, a maniçoba, o casquinho de caranguejo, os peixes, os docinhos, as frutas regionais, sempre tiveram uma interpretação exclusiva, de sabor superior, no restaurante Lá em Casa, com a orientação direta de Anna Maria Martins, dona do conhecimento das mais valiosas e centenárias tradições da cozinha paraense, que ela recebeu diretamente de seus ancestrais e sempre cultivou com a competência de quem sabe o que faz e com o carinho de quem ama o que faz.

Estes saberes regionais de dona Anna ganharam uma nova arquitetura, incorporando uma visão contemporânea da alta gastronomia internacional, com a entrada em cena de seu filho, o arquiteto Paulo Martins. Os sabores exclusivos da floresta amazônica globalizaram-se, muito antes mesmo do termo globalização ter sido cunhado nas relações mundiais.

Leia mais sobre a história do restaurante.

Baixe aqui uma receita de Pato no Tucupi.

SOBRE O CHEF – PAULO MARTINS

Ao longo de 35 anos à frente do Lá em Casa, o arquiteto Paulo Martins se tornou um embaixador da cozinha paraense. Sem nunca ter feito nenhum curso específico de culinária, ele entrou para o seleto rol de chefs venerados em todo o país e até no exterior. Paulo já trocou experiências com mestres de renome internacional, como o catalão Ferran Adrià, do El Bulli, considerado o melhor restaurante do mundo pela crítica especializada. “A comida paraense é a melhor representação da culinária brasileira, pois toda a sua base é composta de produtos de origem indígena”, afirma. O empenho do chef em divulgar as receitas típicas contribuiu para que ingredientes tão característicos da culinária paraense, como o tucupi, ficassem conhecidos em todo o Brasil e integrassem o cardápio de restaurantes de alta gastronomia, como o paulistano D.O.M., de Alex Atala. Seu trabalho rendeu-lhe inúmeros convites para participar de festivais gastronômicos e ministrar cursos sobre o assunto em outras cidades e países.

Depoimento:

– “Arquiteto de formação e cozinheiro por opção, desde muito cedo convivi com as panelas. Dona Anna, minha mãe, de família tradicional, mas não muito abastada, logo após o casamento começou a trabalhar, fazendo salgados e doces para ajudar na renda familiar. Cresci ajudando dona Anna – é bem verdade que ao lado das panelas, não mexendo com elas.

Minha curiosidade e imaginação fértil me levaram a fazer arquitetura. Eu não queria ser somente um construtor, tinha necessidade de criar, imaginar novas formas, fazer diferente. O convívio com as panelas e a atração pela vida noturna, desde o inicio da faculdade, me levaram a pensar em ter um bar, alguma coisa ligada à noite.

Minha casa não era rica, mas sempre farta. Meu grupo de estudo usava os porões do casarão da São Jerônimo e toda vez que dava, bicava a comidinha caseira que dona Anna preparava.

A partir de 78, quando resolvi abandonar de vez a arquitetura e me dedicar exclusivamente ao restaurante, senti a necessidade de continuar criando. E o processo de criação é o mesmo: imaginação e muita transpiração. Não tem formula mágica nem inspiração divina.

Passei então a estudar e a pesquisar os nossos sabores. Ao jambu, que era usado somente como o companheiro inseparável do tucupi – um mero coadjuvante – dei destaque na minha cozinha. Passei a usá-lo como um alimento e não só como acompanhamento. O arroz de jambu, que hoje faz parte de muitos cardápios e pratos de nossa culinária, foi criado por mim.

A cozinha paraense, da qual me orgulho de ser um dos principais divulgadores, é, sem dúvida alguma, a mais brasileira de todas. Seus elementos básicos são todos originários da cultura indígena.

Este é um dos motivos do sucesso do Ver-o-Peso da Cozinha Paraense, um festival gastronômico anual, que criamos em 1999. Os mais importantes chefs de cozinha do Brasil saem do encontro, invariavelmente, impressionados com os nossos peixes, frutas, temperos… Ingredientes, cheiros e sabores incomparáveis,que compõem o grande banquete do último dia do festival. Produtos únicos e matéria prima inspiradora para as diferentes técnicas e conceitos culinários dos melhores chefs do Brasil, em Belém.